"Não quero que alguém morra de amor por mim...
Só preciso de alguém que viva por mim,que queira estar junto de mim me abraçando.
Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo, quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade.
Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim...
Nem que eu faça a falta que elas me fazem, o importante para mim é saber que eu em algum momento fui insubstituível... E que esse momento será inesquecível.
Só quero que o meu sentimento seja valorizado. Quero ter sempre um sorriso estampado em meu rosto, mesmo quando a situação não for muito alegre.
E que esse meu sorriso consiga transmitir paz aos que estiverem ao meu redor.
Quero ter certeza de que apesar das minhas renúncias e loucuras alguém me valorize pelo que sou, não pelo que eu tenho.
Mário Quintana
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sábado, 11 de fevereiro de 2023
Poesia de Mário Quintana
quarta-feira, 18 de março de 2020
* "Em Deus, meu criador"

"Em Deus, meu criador"
Não há coisa segura.
Tudo quanto se vê
se vai passando.
A vida não tem dura.
O bem se vai gastando.
Toda criatura
passa voando.
Em Deus, meu criador,
está todo meu bem
e esperança,
meu gosto e meu amor
e bem-aventurança.
Quem serve a tal Senhor
não faz mudança.
Contente assim, minha alma,
do doce amor de Deus
toda ferida,
o mundo deixa em calma,
buscando a outra vida,
na qual deseja ser
toda absorvida.
Do pé do sacro monte
meus olhos levantando
ao alto cume,
vi estar aberta a fonte
do verdadeiro lume,
que as trevas de meu peito
todas consume.
Correm doces licores
das grandes aberturas
do penedo.
Levantam-se os erros,
levanta-se o degredo
e tira-se a amargura
do fruto azedo!
José de Anchieta
* "Minha desgraça"

"Minha desgraça"
Minha desgraça não é ser poeta,
Nem na terra de amor não ter um eco,
E meu anjo de Deus, o meu planeta
Tratar-me como trata-se um boneco...
Não é andar de cotovelos rotos,
Ter duro como pedra o travesseiro...
Eu sei... O mundo é um lodaçal perdido
Cujo sol (quem mo dera!) é o dinheiro...
Minha desgraça, ó cândida donzela,
O que faz que o meu peito blasfema,
É ter para escrever todo um poema
E não ter um vintém para uma vela.
Álvares de Azevedo
quinta-feira, 12 de março de 2020
quarta-feira, 11 de março de 2020
* "Grito negro"
"Preste atenção no que lhe ensinam
e aprenda o mais que puder."
"Grito negro"
Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
E fazer-me tua mina, patrão
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão
Para te servir eternamente como força motriz
Mais eternamente não, patrão
Eu sou carvão
E tenho que arder,sim
E queimar tudo com a força dá minha combustão.
Eu Sou carvão
Tenho que arder na exploração
Arder até às cinzas dá maldição
Arder vivo como alcatrão, meu irmão
Até não ser mais a tua mina, patrão
Eu sou carvão
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo dá minha combustão.
Sim!
Eu serei o teu carvão , patrão!
José Craveirinha
"Pisaste um dia a terra descalça..."

de Xanana Gusmão
"Pisaste um dia a terra descalça
do "bua" e do "malus",
paraste um dia à sombra da casa alta
estranhando o "tuaka"
e reparaste no seu dono
cobrindo com a nudez do seu "hakfolik"
a campa dos antepassados.
Miraste o seu suor tórrido
lavando as faces do seu rosto sujo;
ouviste ainda o seu "hamulak
entoado em "tais" do seu "lulik"
e respeitaste o "manuaten"
Conheceste, na pobreza da sua pele,
o magro olhar altivo
profundamente rude
infinitamente íntimo.
E o dono da terra guardou o seu "ai-suak"
matou o seu "karau"
e levantou o "odan"
agarrou no "tali"
e saiu em busca do seu "kuda"
esgrimindo o "surik" contra o "naog’tem";
e de longe, de mui longe,
de cá dos oceanos,
ferido, ensangüentado,
mas firme no berço do crocodilo *
arremessou o seu "diman"
e sibilando no espaço da história
rude e profundamente
te rasgou a carne
e íntima e infinitamente
abraçou a tua alma de português,
e tu amaste-o ...
e de longe, de mui longe,
de cá dos oceanos
arremessou o seu "diman"
que rude e profundamente
te atravessou a carne
e íntima e infinitamente
abraçou a tua alma ...
e tu ... amaste-o ! ..."
* "O apanhador de desperdícios"
"Um olhar amigo alegra o coração;
uma boa notícia faz a gente sentir-se bem."
"O apanhador de desperdícios"
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
Manoel de Barros
quinta-feira, 1 de agosto de 2019
sábado, 16 de setembro de 2017
** "Marcha"

"Marcha"
As ordens da madrugada
romperam por sobre os montes:
nosso caminho se alarga
sem campos verdes nem fontes.
Apenas o sol redondo
e alguma esmola de vento
quebram as formas do sono
com a idéia do movimento.
Vamos a passo e de longe;
entre nós dois anda o mundo,
com alguns mortos pelo fundo.
As aves trazem mentiras
de países sem sofrimento.
Por mais que alargue as pupilas,
mais minha dúvida aumento.
Também não pretendo nada
senão ir andando à toa,
como um número que se arma
e em seguida se esboroa,
– e cair no mesmo poço
de inércia e de esquecimento,
onde o fim do tempo soma
pedras, águas, pensamento.
Gosto da minha palavra
pelo sabor que lhe deste:
mesmo quando é linda, amarga
como qualquer fruto agreste.
Mesmo assim amarga, é tudo
que tenho, entre o sol e o vento:
meu vestido, minha música,
meu sonho e meu alimento.
Quando penso no teu rosto,
fecho os olhos de saudade;
tenho visto muita coisa,
menos a felicidade.
Soltam-se os meus dedos ristes,
dos sonhos claros que invento.
Nem aquilo que imagino
já me dá contentameno.
Como tudo sempre acaba,
oxalá seja bem cedo!
A esperança que falava
tem lábios brancos de medo.
O horizonte corta a vida
isento de tudo, isento…
Não há lágrima nem grito:
apenas consentimento.
Cecília Meireles
** "VERDES E VOZES"
"VERDES E VOZES"
Escutem as vozes
no meio dos ramos
sabiás, tico-ticos,
pardais, gaturanos...
Escutem dos rios
os risos chegando,
das águas correndo,
das pedras cantando!
Escutem os grilos
crilando seresta
nos vãos das janelas
das horas em festa!
Escutem! Escutem!
Com pressa e vagar!
Há monstros humanos
fazendo-os calar!
E se eles calarem
num frio de repente,
quem vai pintar sonhos
nos sonhos da gente?!!
Maria Dinorah
quinta-feira, 10 de agosto de 2017
** "ODE AO BURGUÊS"

"ODE AO BURGUÊS"
Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampeões! os condes Joões! os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos;
e gemem sangues de alguns milreis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam o "Printemps" com as unhas!
Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o êxtase fará sempre Sol!
Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano!
"– Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
– Um colar... – Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!"
......................
Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte e infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giôlhos
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!
Fora! Fú! Fora o bom burguês!...
Mário de Andrade
** "Meu filho"

"Meu filho"
Você permaneceu tão pouco,
quase nada pude dizer.
Se um dia voltasse, como voltam as marés,
com o meu coração mais fecundo,
a vida plena de saber,
eu saberia até a eternidade de você.
Dentro da imensidade,
em plena calmaria,
sem o ruído das ondas
e o sibilar das correntes,
o silêncio nos envolveria.
Neste momento, nesta comunhão de almas,
o seu coração pulsaria com o meu.
Cresceria em nós um poder imenso,
emanado desta força de junção.
Jamais diríamos palavras,
estão gravadas em nossos pensamentos.
Mas, colo velas abertas ao infinito,
você partiu tão veloz quanto o vento.
Se minha voz não pode chegar aos seus ouvidos,
se minha ânsia não pode tocar os seus sonhos,
se você sumiu neste mar sem limites,
pense, ao menos, que esta areia onde piso
e a imensidão destas águas marulhantes
são parte de uma só paisagem
e não podem viver isoladamente.
Martha Lucena Barreto
** "Nômade"

"Nômade"
Senhores, tornei-me nômade,
Já desatei os laços da saudade,
desfiz os nós da ansiedade
e disse adeus à solidão.
Pela prerrogativa de ter vivido tudo
-ou quase tudo- conheço as trilhas por onde andar...
Sei as estradas que me acolherão,
as fontes para minha sede
e meus pés refrescar.
Sei ainda as pousadas
onde renovo as energia
e retornarei à jornada.
Seguirei leve,
mais leve,
no acelerar de cada passo.
Quando chegar - onde chegar?
Não voltarei meus olhos para a estrada que ficou.
O meu corpo será plenitude para sempre.
Martha Lucena Barreto
quarta-feira, 9 de agosto de 2017
** "O Advogado"

"O Advogado"
Leio no jornal notícia banal:
Precisa-se de advogado
Muito bem formado.
Pode ser simples iniciante,
Mas estudioso bastante,
Do sexo masculino,
Ou do feminino.
De trato afável,
De companhia agradável,
Mesmo sem experiência,
Mas dotado de persistência,
Com plano ambiciosos,
D e ser estudioso,
De ser vitorioso,
Como advogado capaz,
Como contendor sagaz,
Como patrono altaneiro,
Como defensor guerreiro,
Observando o rigor da ética,
Na argumentação dialética,
Sem visar lucro imoral,
Mercê de conduta venal,
Evitando ser advogado marginal,
Traindo o sagrado ideal,
Da advocacia profissional,
De servir com fidelidade,
Ao cliente, com honestidade,
Ao juízo com dignidade,
Para honra da advocacia e da sociedade.
Nelson Kojranski
domingo, 17 de julho de 2016
"Os Óculos da Vovó"
"Deus deu o poder da influência para a mulher!
Umas usam para manipulação e destroem;
outras usam para edificação e constroem!"
Umas usam para manipulação e destroem;
outras usam para edificação e constroem!"
— Helena Tannure

de DOM MARCOS BARBOSA
Como acabar meu tricô,
como assistir à novela,
se esses óculos benditos
me somem sem mais aquela?
Vovó, procurando os óculos,
vai do quarto para a sala
e de novo volta ao quarto,
sem ninguém para ajudá-la.
E até parece que os netos
estão a se divertir,
pois mesmo seu predileto
faz força para não rir.
Deve saber onde estão,
porque lhe diz o malvado:
— Já está ficando quente
seu chicotinho queimado!
E o diz quando está no quarto
ou à sala torna a voltar.
— Mas como pode uma coisa
em dois lugares estar?
Em sinal de desespero
leva então as mãos à testa:
ali estão os seus óculos
e tudo vira uma festa.
como assistir à novela,
se esses óculos benditos
me somem sem mais aquela?
Vovó, procurando os óculos,
vai do quarto para a sala
e de novo volta ao quarto,
sem ninguém para ajudá-la.
E até parece que os netos
estão a se divertir,
pois mesmo seu predileto
faz força para não rir.
Deve saber onde estão,
porque lhe diz o malvado:
— Já está ficando quente
seu chicotinho queimado!
E o diz quando está no quarto
ou à sala torna a voltar.
— Mas como pode uma coisa
em dois lugares estar?
Em sinal de desespero
leva então as mãos à testa:
ali estão os seus óculos
e tudo vira uma festa.

sábado, 16 de julho de 2016
"A Avó"
"Os homens direitos sabem dizer coisas agradáveis,
porém os maus estão sempre ofendendo os outros."
"A Avó"
de Olavo Bilac
de Olavo Bilac
A avó, que tem oitenta anos,
Está tão fraca e velhinha! . . .
Teve tantos desenganos!
Ficou branquinha, branquinha,
Com os desgostos humanos.
Hoje, na sua cadeira,
Repousa, pálida e fria,
Depois de tanta canseira:
E cochila todo o dia,
E cochila a noite inteira.
Às vezes, porém, o bando
Dos netos invade a sala . . .
Entram rindo e papagueando:
Este briga, aquele fala,
Aquele dança, pulando . . .
A velha acorda sorrindo,
E a alegria a transfigura;
Seu rosto fica mais lindo,
Vendo tanta travessura,
E tanto barulho ouvindo.
Chama os netos adorados,
Beija-os, e, tremulamente,
Passa os dedos engelhados,
Lentamente, lentamente,
Por seus cabelos, doirados.
Fica mais moça, e palpita,
E recupera a memória,
Quando um dos netinhos grita:
"Ó vovó! conte uma história!
Conte uma história bonita!"
Então, com frases pausadas,
Conta historias de quimeras,
Em que há palácios de fadas,
E feiticeiras, e feras,
E princesas encantadas . . .
E os netinhos estremecem,
Os contos acompanhando,
E as travessuras esquecem,
— Até que, a fronte inclinando
Sobre o seu colo, adormecem . . .
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