sábado, 16 de setembro de 2017

** "Em Maio"



"Em Maio"

Já não há mais razão para chamar as lembranças
e mostrá-las ao povo
em maio.
Em maio sopram ventos desatados
por mãos de mando, turvam o sentido
do que sonhamos.
Em maio uma tal senhora Liberdade se alvoroça
e desce às praças das bocas entreabertas
e começa:
"Outrora, nas senzalas, os senhores..."
Mas a Liberdade que desce à praça
nos meados de maio,
pedindo rumores,
é uma senhora esquálida, seca, desvalida,
e nada sabe de nossa vida.
A Liberdade que sei é uma menina sem jeito,
vem montada no ombro dos moleques
ou se esconde
no peito, em fogo, dos que jamais irão
à praça.
Na praça estão os fracos, os velhos, os decadentes
e seu grito: "Ó bendita Liberdade!"
E ela sorri e se orgulha, de verdade,
do muito que tem feito!


Oswaldo de Camargo


* "Mais ideias para a Decoração de Festa Caipira"


"Mais ideias para a 
Decoração de Festa Caipira"










* "Cantinhos necessários!!!"



"Cantinhos necessários!!!"
























** "Marcha"



"Marcha"

As ordens da madrugada
romperam por sobre os montes:
nosso caminho se alarga
sem campos verdes nem fontes.
Apenas o sol redondo
e alguma esmola de vento
quebram as formas do sono
com a idéia do movimento.

Vamos a passo e de longe;
entre nós dois anda o mundo,
com alguns mortos pelo fundo.
As aves trazem mentiras
de países sem sofrimento.
Por mais que alargue as pupilas,
mais minha dúvida aumento.

Também não pretendo nada
senão ir andando à toa,
como um número que se arma
e em seguida se esboroa,
– e cair no mesmo poço
de inércia e de esquecimento,
onde o fim do tempo soma
pedras, águas, pensamento.

Gosto da minha palavra
pelo sabor que lhe deste:
mesmo quando é linda, amarga
como qualquer fruto agreste.
Mesmo assim amarga, é tudo
que tenho, entre o sol e o vento:
meu vestido, minha música,
meu sonho e meu alimento.

Quando penso no teu rosto,
fecho os olhos de saudade;
tenho visto muita coisa,
menos a felicidade.
Soltam-se os meus dedos ristes,
dos sonhos claros que invento.
Nem aquilo que imagino
já me dá contentameno.

Como tudo sempre acaba,
oxalá seja bem cedo!
A esperança que falava
tem lábios brancos de medo.
O horizonte corta a vida
isento de tudo, isento…
Não há lágrima nem grito:
apenas consentimento.


Cecília Meireles 



** "Com Tampinhas de Refri..."

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas,
 que já tem a forma do nosso corpo,
 e esquecer os nossos caminhos,
 que nos levam sempre aos mesmos lugares.
 É o tempo da travessia:
e,
 se não ousarmos fazê-la, 
teremos ficado,
 para sempre, 
à margem de nós mesmos."

                           Fernando Pessoa


"Com Tampinhas de Refri..."






** "Isto"




"Isto"

Dizem que finjo ou minto 
Tudo que escrevo. Não. 
Eu simplesmente sinto 
Com a imaginação. 
Não uso o coração. 

Tudo o que sonho ou passo, 
O que me falta ou finda, 
É como que um terraço 
Sobre outra coisa ainda, 
Essa coisa é que é linda. 

Por isso escrevo em meio 
Do que não está ao pé, 
Livre do meu enleio, 
Sério do que não é. 
Sentir? Sinta quem lê! 

Fernando Pessoa


** "Alfabetizando"



"Alfabetizando"



** "Sonho De Uma Flauta"


"Sonho De Uma Flauta"

Nem toda palavra é 
Aquilo que o dicionário diz 
Nem todo pedaço de pedra 
Se parece com tijolo ou com pedra de giz 

Avião parece passarinho 
Que não sabe bater asa 
Passarinho voando longe 
Parece borboleta que fugiu de casa 

Borboleta parece flor 
Que o vento tirou pra dançar 
Flor parece a gente 
Pois somos semente do que ainda virá 

A gente parece formiga 
Lá de cima do avião 
O céu parece um chão de areia 
Parece descanso pra minha oração 

A nuvem parece fumaça 
Tem gente que acha que ela é algodão 
Algodão às vezes é doce 
Mas às vezes é doce não 

Sonho parece verdade 
Quando a gente esquece de acordar 
O dia parece metade 
Quando a gente acorda e esquece de levantar 
Hummm... e o mundo é perfeito 
E o mundo é perfeito 
E o mundo é perfeito 

Eu não pareço meu pai 
Nem pareço com meu irmão 
Sei que toda mãe é santa 
Sei que incerteza traz inspiração 

Tem beijo que parece mordida 
Tem mordida que parece carinho 
Tem carinho que parece briga 
Briga que aparece pra trazer sorriso 

Tem riso que parece choro 
Tem choro que é por alegria 
Tem dia que parece noite 
E a tristeza parece poesia 

Tem motivo pra viver de novo 
Tem o novo que quer ter motivo 
Tem a sede que morre no seio 
Nota que fermata quando desafino 

Descobrir o verdadeiro sentido das coisas 
É querer saber demais 
Querer saber demais 

Sonho parece verdade 
Quando a gente esquece de acordar 
O dia parece metade 
Quando a gente acorda e esquece de levantar 

Mas sonho parece verdade 
Quando a gente esquece de acordar 
O dia parece metade 
Quando a gente acorda e esquece de levantar 
E o mundo é perfeito 
E o mundo é perfeito 
E o mundo é perfeito